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As ambíguas vias da diplomacia

De seguida, António Guterres ruma à Rússia para se encontrar com Putin, se este o receber. Se não, contenta-se em almoçar com Labrov. Por fim, decerto já cansado da viagem e do inerente jet lag, passa pelo país invadido por Putin, a tomar um cafezinho com Zelensky. Tour accompli!

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    • 13:02 | Domingo, 24 de Abril de 2022
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    António Guterres é português e secretário-geral da ONU. Motivo para nos encher de orgulho, no nosso patriotismo sempre em déficit de valores “grandiosos”.

    Porém, o momento mais determinante da História mundial das últimas sete décadas, a invasão da Ucrânia pelas tropas russas de Putin, parece tê-lo deixado em estado apático ou de duvidosa proactividade.

    Alvo de críticas pelo seu já pesado e insuportável desprendimento – outros diriam menosprezo – Guterres saiu enfim do seu doirado casulo e decidiu-se a agir.


    E contudo, também a forma como planeou, como delineou a sua acção não deixa de ser susceptível de reparos.

    Aproveitando o ensejo, começa o seu périplo pela Turquia e pelo islamita liberal Erdogan, activista do neo-otomanismo, ávido de se expandir e às suas ideias ultra-nacionalistas.

    Recep Tayyip Erdoğan é o autor do célebre dito que, de certa forma, resume o seu pensamento e oportunismo: “Democracy is like a train, when you reach your destination you get off” para concluir agora com esta notável confissão: “Democracy, freedom and rule of law have absolutely no value in Turquey”.

    De seguida, António Guterres ruma à Rússia para se encontrar com Vladimir Putin, se este o receber. Se não, contenta-se em almoçar com Sergey Lavrov. Por fim, decerto já cansado da viagem e do inerente jet lag, passa pelo país invadido por Putin, a tomar um cafezinho com Zelensky. Tour accompli!

    Provavelmente são estas as magnas regras da diplomacia mundial. As regras que dizem que devemos começar o “social” por quem, neste momento, está acusado de centenas de crimes de guerra, genocídio inclusive para, de seguida e se houver tempo, se encontrar com o líder legítimo de um país invadido, destruído, arrasado.

    Como diria o poeta: “Le coeur a des raisons que la raison ne connaît pas.”

    Guterres cedeu às pressões que lhe condenavam a inércia, mas não soube ou não ousou debelar o atrito que o tolhia.

     

    (Foto DR)

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