CAPÍTULO XIII
Foi eleito um novo Grupo Parlamentar PS da Assembleia Municipal de Tondela, que me orgulho ter liderado durante os 4 anos seguintes. Logo na primeira reunião ordinária do mandato, realizada no dia 20 de dezembro de 2013, estranhámos, por um lado, a artimanha, por outro, o regozijo pelo facto de, na Ordem de Trabalhos, haver um ponto para “Análise discussão do sistema de abastecimento de água domiciliária” – a nossa luta começara a surtir efeitos. Mas nem tudo eram rosas – seria, menos que uma discussão, um colóquio talvez, como lhe chamei, de propaganda e com 2 convidados especiais, vindos diretamente da capital do Império para pregar aos deputados municipais, já que os peixes preferiram ficar mergulhados dentro das margens da barragem do Paul.
Terminado o tempo de propaganda do primeiro orador, que se espalhou em gráficos e mais gráficos, quase me comovi e não resisti: encomende frascos de perfume a uma fábrica da Marinha Grande, engarrafe a água e venda-a ao preço que quiser. Parabéns pelo impacto de tão contundente criação de valor, mas que não me convenceu.
– …?
– Ok, ok, está bem, admito o meu exagero pelo tamanho dos frascos, afinal só foi até ao cálculo do valor do quase nada, que caberia num copo de meio quartilho, mais conhecido por “copo de três, nos nossos meios rurais, ou meios menos urbanos, para que entenda melhor, o que tanto faz… – foi assim uma coisa parecida com a exortação do nada, aquilo que se vende nas feiras, nas festas e nas romarias, com um fundo musical da canção do desgraçadinho – a quem beber um copo, ofereço outro! Que a água jorre com fartura …
Mas em tom muito baixinho, não fosse alguém ouvir, disse que a água aumentava ao ritmo da inflação, será de 1,05% em 2014. Claro que a manipulação é tão fácil de fazer, que foi feita. Só que a estrutura tarifária nem a taxa de disponibilidade não são calculadas a pensar na inflação. Além disso, o consumo mede-se em metros cúbicos e não em frascos de perfume.
Ora, se fosse como disse, explique lá, senhor orador, qual a razão pela qual, nos últimos 6 anos pós-Adenda, o aluguer do contador e o preço de cada metro cúbico nos primeiros 3 escalões, que enquadram quase todos os consumidores, aumentarem entre 60% e 70%! É que a inflação nem uma quinta parte disso foi…!
Sendo assim, é uma vergonhosa contradição – só é possível baixar o preço da água se aumentar o número de consumidores. Por um lado, há que poupar, por outro, há que consumir. Afinal, quem fez o investimento? Quem vai pagar o investimento?
Bem sabemos, é assim que são calculadas as rendas da PPP’s, sorvedouros de dinheiros dos contribuintes. Se fazer contas assim é fácil, não podemos permitir que sejam uma fatalidade. A água é um bem essencial e não pode ser usada como um negócio qualquer, nem como arma para fazer política. A água é de todos, é nossa! Não está em causa termos de a pagar, mas que seja a um preço justo!
E a discussão lá continuou e que, terminada, outro orador se seguiu, cuja paixão, confessou, era fazer contas e construir preços iguais para todos, mesmo que o custo da rede varie em função do ponto de entrega do produto – a lógica da batata aplicada à ciência do “rebéubéu pardais ao ninho”, como se fosse uma novidade científica e inovadora.
Mas a rede é de quem? Dos municípios, para quem sobram os nossos impostos!
E a distribuição é de quem? Da concessão, que trata a água e a mete nos canos e a quem nós pagamos!
Então, o que está mal?
A gula do poder! …
(CONTINUA)