Bom senso

Num novo governo minoritário, será avisado que os dois maiores partidos se entendam, cada um deixando o outro governar, dar-lhe tempo e oportunidade. Que PSD e PS se escrutinem reciprocamente, mas não se deixem levar pela sofreguidão do aparelho, ávido de ocupar lugares e gozar de mordomias, os " barões" sentados à sempre recheada mesa do orçamento.

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  • 14:09 | Segunda-feira, 24 de Março de 2025
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Tiremos a repartição de culpas na crise. Brasileirando, vamos aos “finalmentes“.

Revisitemos a História Contemporânea e atenhamo-nos no que ela nos ensina. Sendo racional, só um terramoto político dará a qualquer partido uma maioria folgada, em Maio. Como tal, lá para 2027, com outro PR, talvez mais interventivo e menos folclórico, talvez novas eleições se afigurem com alto grau de probabilidade. Por isso, pretender afastar Montenegro da liderança do PSD, já agora, ou, em caso de derrota, daqui a dois meses, ou mais lá para diante, num cenário de instabilidade, será um erro de análise.

Se o “não é não” se mantiver, Montenegro será, ainda assim, um seguro de vida para a democracia. Outro que lhe suceda, facilitará a formação de maiorias com o Chega, fruto de alianças quase prometidas, com retrocessos em matérias diversas, nomeadamente, segurança, saúde e educação.

Se o PS vencer, este cenário não se coloca, obviamente. Se a crise de 2011 nos deu alguma lição, com toda a oposição a votar contra o PEC IV, abrindo as portas à Troika, foi que o tempo das ideologias duras, inflexíveis, teve o seu prazo de validade. Se tivesse havido bom senso, talvez fosse evitável aquele duro tempo das trevas.


Num novo governo minoritário, será avisado que os dois maiores partidos se entendam, cada um deixando o outro governar, dar-lhe tempo e oportunidade. Que PSD e PS se escrutinem reciprocamente, mas não se deixem levar pela sofreguidão do aparelho, ávido de ocupar lugares e gozar de mordomias, os ” barões” sentados à sempre recheada mesa do orçamento.

Desde o 1.⁰ governo de Mário Soares, em 1976, já lá vão 25 governos constitucionais, à razão de dois anos de duração para cada governo. Esta precariedade dos executivos pode ser muito boa para os interesses partidários e para os ganhos que a turbamulta espera encontrar nos despojos da refrega eleitoral, ansiosa pelo regresso ao tesouro, mas não serve os desígnios do país.

Sem estabilidade, não há reformas – há quanto tempo não se faz uma a sério? -, não há investimento estrangeiro, não há competitividade empresarial, não há criação de emprego, não há riqueza, não há aumento do poder de compra. Sem estabilidade, os governos navegam à vista, apagando os fogos que forem aparecendo, são de gestão corrente, máquinas eleitorais ao serviço dos partidos. Sem estabilidade, não se pensa o país, a visão é fugaz, os desígnios nacionais perdem força e tornam-se empecilhos. Sem estabilidade, prolongam-se os períodos de incerteza e os miniciclos na governação.

Não sendo possível uma cultura de compromisso e de responsabilidade entre os dois maiores partidos, que faça evoluir a democracia, com a celebração de acordos pós-eleitorais, que viabilizem legislaturas, pouco faltará para regressarmos ao caos da 1.ª República.

Esta quase ingovernabilidade agradará aos concorrentes, aos protagonistas e aos seus “exércitos”, mas, a breve prazo, causará repulsa ao povo, cansado de tanto disparate e desperdício.

Bastar ler a História para ver que o caldo que nos levou ao 28 de Maio, está aí, revigorado, espreitando a cada esquina. Talvez a solução passe pela alteração do sistema eleitoral, assente no princípio da proporcionalidade, concebido nos tempos românticos da revolução, para garantir a representação dos pequenos partidos, mesmo sacrificando a estabilidade. A grande questão, porém, é a dificuldade em fazer aprovar legislação nesse sentido. Seria o “harakiri” político para quem está ali (no Parlamento), e não estaria em mais nenhum lado, se não estivesse ali. Talvez o problema esteja mesmo na classe política que, salvaguardando excepções, encontra no lugar de deputado a importância que fora do quadro partidário nunca terá, o pequeno poder, a influência, o acesso aos salões. Estará essa gente disposta a sacrificar-se, regressando ao seu lugar de origem, respeitável, estimável, mas anónimo e mediano? Para não ser tido por presumido nem dono da razão, direi simplesmente que tenho dúvidas. O rejuvenescimento das lideranças partidárias não trouxe o refrescamento da prática, do modo e da forma de fazer política, menos crispada, menos radicalizada, menos extremada. Estamos pior do que com os jurássicos da clandestinidade, forjados nas dificuldades, na repressão e na resistência. Não é ser Velho do Restelo, mas desta fornada de novos, não se espere inovação e rasgo. Formados nas “jotinhas”, dão o que podem, habituados que estão a não agitar muito as águas que os possam afastar da bonançosa beira-mar, tripudiando-lhes as ambições. PS – Face aos resultados da Madeira, com o PSD a um passo da maioria absoluta e vencedor em 11 dos 12 concelhos, vejo uns quantos intelectuais babarem-se em comentários indecorosos. Que não se percebe aquele povo, que as votações são um caso de estudo, etc. Mormente o PS, que ponha os olhos no arquipélago e reflicta sobre a hecatombe. E como o 3.⁰ partido o relegou para terceira força.

Talvez o povo ande cansado de tanta rasteira, de tanto pontapé na democracia, exausto desta forma de fazer política, presa aos códigos ideológicos, distante das aspirações dos eleitores e do que verdadeiramente lhe importa.

Reduzir os ilhéus à condição de atrasados mentais é ofensivo. Por causa das coisas, para mim, o povo tem sempre razão, mesmo quando a julgo estranha ou a escolha não me agrada.

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Publicado em Opinião